maio 16, 2004

Que fazer com os nossos pais velhotes?

«Não vos tenho dito nada porque não tenho tido tempo nem disposição... Ando com um problema terrível... Os meus pais, sabes? O meu pai, entre o reumático e os problemas de coração, até para tomar banho é necessário que o ajudem. Já assim é há alguns anos mas tudo se foi arranjando enquanto a minha mãe foi tomando conta dele. Mas agora, ela começou a ter uns esquecimentos... No outro dia esqueceu-se do comer ao lume, o tacho ficou em cinzas. Num outro, deixou uma torneira a correr e houve inundações. Já pensei se não será alzheimer mas o médico ainda não confirmou. Já me apercebi que eles não andam a tomar os medicamentos como deve ser, pois baralham aquilo tudo.
Vou lá a casa quase todos os dias mas ainda é longe, uma hora para lá e outra para cá. Se tivesse possibilidades comprava-lhes uma casa perto de mim. Se tivesse mais dinheiro pagava a uma pessoa para cuidar deles dia e noite, mas não tenho. A reforma do meu pai também não chega para isso. A mulher a dias vai lá cinco vezes por semana mas, à noite, eles ficam sozinhos. Aos fins de semana trago-os para minha casa, deito-os no meu quarto e durmo na sala. Mas não é solução para sempre. Ainda se tivesse um quarto disponível, mas não tenho. Já pensei num lar, mas...
Eu estou com uma depressão ou coisa que o valha... Tremem-me as mãos, tomo comprimidos para dormir e comprimidos para acordar. Mesmo assim, por vezes, tenho dificuldade em manter o ritmo nas aulas. Então naqueles dias em que os alunos estão mais desassossegados e barulhentos, no final da primeira aula já estou cheia de dores de cabeça. Os meus filhos ressentem-se deste meu estado de espírito, oscilando entre animarem-me e agastarem-se comigo. Especialmente o mais novo, quase adolescente.
Ouço algumas pessoas dizerem que, com boa-vontade e amor, tudo se arranja. Que, quando há amor e solidariedade, tudo tem solução. Que os bons filhos devem fazer todos os sacrifícios pelos pais velhotes. Até já ouvi dizer que pôr os pais num lar, quando estes ficam velhos e incapazes, só revela egoísmo, que as chamadas “casas de repouso” não passam de armazéns de velhos, caros mas, quase sempre, sem as devidas condições.
Adoro os meus pais e quero o melhor para eles. Mas, como resolver este problema? Que fazer com os meus pais?»

Esta confissão anónima é de uma amiga, professora do secundário, divorciada, filha única e mãe de dois jovens rapazes, residente algures em Portugal. Quando lhe perguntei se podia por isto no blog, a princípio hesitou. Depois concordou. «Talvez haja por aí muita gente com problemas semelhantes, pessoas que vivem dramas parecidos ao meu», justificou.

Publicado por vmar em maio 16, 2004 08:32 PM
Comentários

Eu aconselho a sua amiga a pôr os pais num Centro de Dia p/3ª. Idade e assim durante o dia estão acompanhados para além de lá fazerem a refeição do almoço e lanche, podendo ainda tomarem os banhos assistidos pelo pessoal do Centro se tal fôr necessário. É uma solução mais económica que o seu internamento num lar que tem custos elevados.

Afixado por: congeminações em maio 16, 2004 08:56 PM

O Inverno da vida, nunca deixa que o Sol brilhe na sua plenitude.
Não acredito que existam soluções aprazíveis, para solucionar situações semelhantes.
Nada fará jamais esquecer o amor paterno, assim como o retorno dos descendentes, não se deve quedar por sentimentalismos sem esperança.
Na balança da vida devem ser colocadas todas as alternâncias e mesmo que o fiel da dita permaneça imóvel, temos de ter a coragem de assumir e defender acerrimamente, o que nos parece melhor, ainda que nos critiquem.


Afixado por: jgonçalves em maio 16, 2004 09:47 PM

maldita vida. problema de tantos nós. amarfanha.
diga lá para nunca, mas nunca, criar complexo de culpa. o resto, bem o resto...

Afixado por: jpt em maio 16, 2004 09:50 PM

Já vi esse filme! E ainda estou a ver a segunda parte. O meu pai está num lar, a minha mãe já partiu. Alguns lares não são o "depósito" de que se fala. É raro o dia que lá não vou. Entre o estar em casa sem condições, sózinho, sem ninguém que lhe faça nada, a opção lar não é a pior. Mas existem lares e lares, compreendem?

Afixado por: canzoada em maio 16, 2004 10:58 PM

Não sei de onde é esta colega, mas existe uma entidade chamada "casa do professor", que acolhe professores e pais de professores. Não é um lar, é uma casa. Quem lá vive tem chave e entra e sai como quer e, se decidir conservar a sua casa própria e lá passar temporadas, pode faze-lo sem problemas. Têm, no entanto, todos os cuidados quando estão lá, na casa do professor.

Afixado por: M. em maio 17, 2004 12:36 AM

Não percebo que raio de sociedade estamos a construir...

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em maio 17, 2004 12:40 AM