«Não vos tenho dito nada porque não tenho tido tempo nem disposição... Ando com um problema terrível... Os meus pais, sabes? O meu pai, entre o reumático e os problemas de coração, até para tomar banho é necessário que o ajudem. Já assim é há alguns anos mas tudo se foi arranjando enquanto a minha mãe foi tomando conta dele. Mas agora, ela começou a ter uns esquecimentos... No outro dia esqueceu-se do comer ao lume, o tacho ficou em cinzas. Num outro, deixou uma torneira a correr e houve inundações. Já pensei se não será alzheimer mas o médico ainda não confirmou. Já me apercebi que eles não andam a tomar os medicamentos como deve ser, pois baralham aquilo tudo.
Vou lá a casa quase todos os dias mas ainda é longe, uma hora para lá e outra para cá. Se tivesse possibilidades comprava-lhes uma casa perto de mim. Se tivesse mais dinheiro pagava a uma pessoa para cuidar deles dia e noite, mas não tenho. A reforma do meu pai também não chega para isso. A mulher a dias vai lá cinco vezes por semana mas, à noite, eles ficam sozinhos. Aos fins de semana trago-os para minha casa, deito-os no meu quarto e durmo na sala. Mas não é solução para sempre. Ainda se tivesse um quarto disponível, mas não tenho. Já pensei num lar, mas...
Eu estou com uma depressão ou coisa que o valha... Tremem-me as mãos, tomo comprimidos para dormir e comprimidos para acordar. Mesmo assim, por vezes, tenho dificuldade em manter o ritmo nas aulas. Então naqueles dias em que os alunos estão mais desassossegados e barulhentos, no final da primeira aula já estou cheia de dores de cabeça. Os meus filhos ressentem-se deste meu estado de espírito, oscilando entre animarem-me e agastarem-se comigo. Especialmente o mais novo, quase adolescente.
Ouço algumas pessoas dizerem que, com boa-vontade e amor, tudo se arranja. Que, quando há amor e solidariedade, tudo tem solução. Que os bons filhos devem fazer todos os sacrifícios pelos pais velhotes. Até já ouvi dizer que pôr os pais num lar, quando estes ficam velhos e incapazes, só revela egoísmo, que as chamadas “casas de repouso” não passam de armazéns de velhos, caros mas, quase sempre, sem as devidas condições.
Adoro os meus pais e quero o melhor para eles. Mas, como resolver este problema? Que fazer com os meus pais?»
Esta confissão anónima é de uma amiga, professora do secundário, divorciada, filha única e mãe de dois jovens rapazes, residente algures em Portugal. Quando lhe perguntei se podia por isto no blog, a princípio hesitou. Depois concordou. «Talvez haja por aí muita gente com problemas semelhantes, pessoas que vivem dramas parecidos ao meu», justificou.
Eu aconselho a sua amiga a pôr os pais num Centro de Dia p/3ª. Idade e assim durante o dia estão acompanhados para além de lá fazerem a refeição do almoço e lanche, podendo ainda tomarem os banhos assistidos pelo pessoal do Centro se tal fôr necessário. É uma solução mais económica que o seu internamento num lar que tem custos elevados.
Afixado por: congeminações em maio 16, 2004 08:56 PMO Inverno da vida, nunca deixa que o Sol brilhe na sua plenitude.
Não acredito que existam soluções aprazíveis, para solucionar situações semelhantes.
Nada fará jamais esquecer o amor paterno, assim como o retorno dos descendentes, não se deve quedar por sentimentalismos sem esperança.
Na balança da vida devem ser colocadas todas as alternâncias e mesmo que o fiel da dita permaneça imóvel, temos de ter a coragem de assumir e defender acerrimamente, o que nos parece melhor, ainda que nos critiquem.
maldita vida. problema de tantos nós. amarfanha.
diga lá para nunca, mas nunca, criar complexo de culpa. o resto, bem o resto...
Já vi esse filme! E ainda estou a ver a segunda parte. O meu pai está num lar, a minha mãe já partiu. Alguns lares não são o "depósito" de que se fala. É raro o dia que lá não vou. Entre o estar em casa sem condições, sózinho, sem ninguém que lhe faça nada, a opção lar não é a pior. Mas existem lares e lares, compreendem?
Afixado por: canzoada em maio 16, 2004 10:58 PMNão sei de onde é esta colega, mas existe uma entidade chamada "casa do professor", que acolhe professores e pais de professores. Não é um lar, é uma casa. Quem lá vive tem chave e entra e sai como quer e, se decidir conservar a sua casa própria e lá passar temporadas, pode faze-lo sem problemas. Têm, no entanto, todos os cuidados quando estão lá, na casa do professor.
Afixado por: M. em maio 17, 2004 12:36 AMNão percebo que raio de sociedade estamos a construir...
Um abraço,
Francisco Nunes